“A Grande Aposta”: entendendo a crise de 2008

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“O que nos causa problemas não é o que não sabemos. É o que temos certeza que sabemos e que, no final, não é verdade”. A citação do escritor americano Mark Twain, que aparece logo no início do filme “A grande aposta”, indicado em 5 categorias no Oscar de ontem e vencedor do Melhor Roteiro Adaptado, resume uma importante lição do filme: nos investimentos, a certeza desvinculada de fatos concretos é mais prejudicial do que a dúvida.

A certeza era de que as obrigações hipotecárias seriam cumpridas, o mercado imobiliário americano jamais quebraria e não haveria hipótese de uma crise econômica em escala mundial como fora a de 2008. Ledo engano.

Para descobrir a verdade, bastava olhar (ou duvidar). Foi o que fez o gestor de fundos Michael Burry, interpretado no filme por Christian Bale, indicado a Melhor Ator Coadjuvante. Ele se baseou em conhecimentos históricos para saber que, ao contrário do que se falava de forma recorrente, nem sempre o mercado imobiliário é um porto seguro, vide a Grande Depressão de 1929.

De fato, os anos anteriores à crise financeira de 2008 foram caracterizados por um número excessivo de empréstimos bancários destinados ao financiamento de imóveis, sem que houvesse critérios sólidos para o fechamento desses contratos: não se verificava e nem importava a renda do tomador do empréstimo, se ele estava empregado ou não, seu histórico de crédito, etc… Esses empréstimos de alto risco eram também chamados de subprime, como explicou Margot Robbie em seu banho de espuma tomando champagne: “cada vez que ouvir subprime, pense em lixo”.

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Para os bancos, o alto risco das hipotecas subprimes era justificado em busca de maiores retornos, que viriam pelos juros variáveis (aumentavam extorsivamente com o tempo) sobre os empréstimos. Sim, era tentador aos bancos e investidores contraírem grandes dívidas que representassem retornos futuros ainda maiores. Alavancagem é o nome que se dá a essa multiplicação futura da rentabilidade através do endividamento.

Além disso, os pagamentos mensais pelos empréstimos pelos quais os bancos teriam direito poderiam ser revendidos em forma de títulos hipotecários. Na verdade, um único título hipotecário era composto de centenas, talvez milhares, de hipotecas, tornando-se um produto sofisticado e difícil de ser avaliado.

Chamamos esses títulos hipotecários de CDO (collateralized debit obligations, ou obrigações de dívidas colaterizadas, em tradução livre). O investidor que compra um CDO espera receber dividendos de acordo com a rentabilidade das hipotecas que o compõe.

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Acontece que alguns destes CDO’s chegavam a ser formados por 95 % de hipotecas subprime, com alto risco de inadimplência, mas eram vendidos como se fossem um produto triple AAA (altamente seguro, de baixíssimo risco, tal qual o título do tesouro norte-americano). Pura fraude. As agências de classificação de risco (S&P, Fitch, Moody’s) eram pagas pelos bancos, principais clientes dessas agências, para darem os melhores ratings a produtos que deveriam ser classificados como junk (B, BB, BBB) e, dessa forma, facilitar a venda desses CDO’s.

Era interessante para os bancos venderem CDO’s altamente tóxicos – desde que disfarçados de triple AAA – pois poderiam ser oferecidas maiores taxas de retorno para os investidores devido ao maior risco que estes estavam correndo – sem saber. O produto ficava mais atrativo ao investidor, que acabava comprando mais. Segue o exemplo dado no filme pelo Anthony Bourdain, famoso chef culinário: “o peixe fresco que não foi vendido e agora está ficando podre (hipoteca BBB) é jogado num ensopado novo (CDO), e a melhor parte é que as pessoas comem e acham uma delícia”.

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Enquanto o mercado imobiliário americano continuasse inflado, isto é, os preços dos imóveis continuassem a subir, toda essa farra se sustentaria. A expressão “mão quente” no basquete significa a crença de que, se um jogador acertou 10 arremessos seguidos, ele também acertará o próximo. Por essa premissa, já que o preço das casas está aumentando e o mercado imobiliário nunca quebrou, assim continuará. Uma casa comprada em janeiro de 2005 por US$ 100 mil era facilmente revendida pelo dobro antes mesmo do final do ano. O lucro com a revenda da propriedade era mais que o suficiente para honrar as obrigações hipotecárias e é por isso que algumas pessoas compravam 3, 4, ou até 5 imóveis de uma só vez (lembra da alavancagem?). Com as hipotecas em dia, os bancos receberiam seus juros pelos empréstimos e o CDO daria rentabilidade a quem os detinha.

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De acordo com uma máxima das finanças, um investimento não pode ser avaliado apenas por seu histórico passado, ainda que essa performance corresponda a décadas consecutivas de valorização. Mas e se o preço dos imóveis parasse de subir? Foi a pergunta que se fez Michael Burry, nosso amigo lá do início. “Bom, se isso acontecer, é melhor que tenhamos um bom seguro”, deve ter pensado ele.

Esse seguro é o que chamamos de CDS (Credit Default Swap). O CDS é um derivativo de crédito que funciona como uma espécie de seguro contra a inadimplência: a parte que compra o CDS está buscando proteção contra um evento de risco (a inadimplência das hipotecas). O vendedor, por sua vez, recebe uma grana pelo CDS vendido, mas corre o risco de ter que pagar um valor bem maior ao comprador caso o evento de risco se concretize. Como o risco de alguém não honrar suas hipotecas era algo inimaginável até então, a seguradora AIG (responsável por lançar o CDS no mercado) e vários bancos de investimentos venderam milhões dessas apólices de seguro pensando que estavam fazendo um baita negócio. E mais, venderam a preço de banana: por alguns centavos, se comprava um CDS que renderia um dólar caso houvesse um colapso. Era possível obter até 20 vezes o valor investido.

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Em outras palvras, o que Michael Burry e, posteriormente, os outros personagens do filme fizeram ao gastar todo dinheiro dos seus respectivos fundos em CDS foi apostar contra o mercado imobiliário americano. Uma vez que esta “grande aposta” se concretizasse, eles ficariam ricos, porém, haveria uma enorme crise, as pessoas perderiam suas casas, seus empregos, reformas e pensões.

Como se  não bastasse, alguns bancos estavam lançando um outro produto no mercado: o CDO sintético, que nada mais era que um CDO do CDO. Se as obrigações hipotecárias fossem um isqueiro e os CDO’s um coquetel molotov, os CDO’s sintéticos seriam uma bomba atômica com um presidente bêbado com o dedo em cima do botão acionador.

Vamos supor o seguinte: Selena Gomez tem 87% de vencer a banca no blackjack e resolve apostar 10 milhões em sua vitória (ou comprar um CDO). Confiante de que a Selena ganha, uma senhora de óculos poderia apostar 100 milhões nela (primeiro CDO sintético). Da mesma forma, um rapaz poderia apostar 200 milhões que a senhora de óculos vence a sua aposta (segundo CDO sintético), e assim por diante. Uma aposta original de 10 milhões movimentava bilhões de dólares. E se a Selena Gomez perdesse? Todo mundo também perderia.

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De fato, em um negócio onde o céu é o limite e ganha quem especular mais, as pessoas perdem o bom senso e, no caso do mercado imobiliário, ele já havia se perdido há muito tempo.

Em meados de 2007, os juros variáveis cobrados pelos bancos começaram a pesar abruptamente sobre o bolso das pessoas, que não conseguiam mais cumprir suas hipotecas. Com a inadimplência crescendo, a procura por imóveis desacelerou, bem como seus preços. Isso reforçou ainda mais esse cenário de inadimplência, pois limitou o lucro daqueles que só conseguiam pagar as hipotecas com o dinheiro da revenda do imóvel. Os bancos, alavancados em bilhões de dólares, não tinham mais como honrar os dividendos dos CDO’s e também passaram a comprar CDS contra seus próprios produtos pra se proteger. Na compra de CDS, os bancos poderiam lucrar com a quebra dos CDO’s, ganhando o prêmio do seguro, ou poderiam revender os CDS’s a preços mais altos à medida que a crise se intensificava, como fizeram os personagens do filme.

Com tanta gente apostando contra o sistema, não haveria outra saída que não a quebra do próprio. Que aconteceu em setembrou de 2008.

A AIG, seguradora responsável pelos pagamentos dos CDS, também estava alavancada e não podia pagar a todos os assegurados. Como de um dia pro outro, alguns dos principais bancos do mundo – entre eles o Bear Stearns, o Countrywide e, sobretudo, o Lehman Brothers –  decretaram falência. O efeito pânico se alastrou no mercado. Era o colapso econômico mundial.

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Nos anos seguintes à crise, centenas de banqueiros e agentes de rating foram para prisão, a EFCC (Comissão de Crimes Econômicos e Financeiros) foi completamente reestruturada e os congressistas não tiveram outra hipótese senão deixar os grandes bancos falirem e regular as hipotecas e derivativos.

Mentira. Pode esquecer esse último parágrafo…

A verdade é que os bancos receberam dinheiro do governo norte-americano para não falirem e usaram-no pra pagar a si mesmos grandes bônus e fazer um lobby do congresso. Um único banqueiro foi preso, Kareen Serageldin, do Credit Suisse, 401 mil poupanças foram zeradas, 8 milhões perderam o emprego e 6 milhões perderam suas casas. O rombo, em valor imobiliário, foi de US$ 5 TRILHÕES. E isso… somente nos Estados Unidos.

Como dissemos lá no início, “nos investimentos, a certeza desvinculada de fatos concretos é mais prejudicial do que a dúvida”. Esta dúvida fez dos 4 personagens do filme milionários. Já a certeza desencadeou a maior crise financeira dos últimos tempos.

A crise de 2008 ocorreu após uma enorme bolha imobiliária. Uma bolha nada mais é que especular e elevar os preços de algo às alturas e, a partir daí, criar um mercado de compra e venda com preços fora do comum. O problema está quando o mercado não encontra mais pessoas dispostas a pagar mais e mais por aquilo.

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